segunda-feira, 26 de maio de 2008

Raízes

Helena foi minha professora de uma das disciplinas básicas do curso de Relações Internacionais. No primeiro dia de aula ela se resumiu as seguintes palavras de apresentação pessoal: “Sou carioca, moro na quadra da frente, não tenho sofás nem geladeira e só fico em Brasília até concluir meu mestrado. Garotos, não se apaixonem por mim, eu só estou de passagem”. Alguém comentou que ela tirou isso de um filme. Eu nunca me preocupei em saber a verdadeira fonte.
No decorrer do semestre eu tive, cada vez mais, certeza de algumas coisas. Uma delas é que eu não nasci pra ser uma internacionalista. Ou profissional de Rel. Internacionais. Como preferir. Outras duas eu vou compartilhar mais um pouco com vocês.
1ª. Era impossível não se apaixonar por Helena. Ela era a amiga que as mulheres queriam e a mulher que os homens desejavam.
2ª. Ninguém está só de passagem.
Eu morava em Brasília há pouco mais de seis meses e do alto da minha vasta experiência e sabedoria adquirida ao longo dos meus 17 anos de vida, eu decidi: “Eu vou ser como ela. Só estarei “de passagem”. O tempo me provou que eu não conseguiria. Em uma das conversas estilo clube da luluzinha alguém perguntou: “mas você é feliz assim?”. O sinal tocou e resposta foi o aviso de que ela tinha uma reunião na coordenação do curso. A partir daí comecei a achar que não deveria ser tão bom assim.
Isso porque é quase impossível alguém simplesmente “passar” pela vida de outra pessoa sem deixar nada, sem levar nada; sem ensinar ou aprender; sem sentir ou se fazer sentir. Porque até mesmo a indiferença precisa de um motivo para assim ser.
Pode ser dolorido, mas vale à pena criar raízes. Ter um lugar pra onde voltar, ter um referencial, ter alicerces firmes para, assim, ir longe o suficiente...quase tão longe que talvez até se esqueça que existem raízes, mas nunca o suficiente para tentar viver sem elas. Talvez não seja fácil reconhecer a hora de partir, falar, calar, ficar, insistir. Talvez fosse mais fácil se nós pudéssemos simplesmente “passar”.
O que incomoda é ver que ainda existem pessoas que se esforçam para viver assim. “Não me ame. Só estou de passagem. Não me ajude; não me elogie; não espere um favor; não queira demonstrações de sentimento; não aguarde palavras sinceras. Só estou de passagem”.
Deus nos mandou ir. Não simplesmente “ir”. “ Portanto, ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém.” (Mateus 28.18-20).
Na véspera do natal passado, quase cinco anos depois de desistir do curso, encontrei Juliana, uma colega de turma da época, no shopping e, quando colocávamos a conversa em dia, ela falou: “ Você não vai acreditar! Lembra da Helena? A prof. De TPol? Pois é...comprou uma geladeira, dois jogos de sofá e um apartamento”.
Definitivamente, ninguém está só de passagem. Nem mesmo Helena. Nem mesmo você. Ninguém vive sem raízes...
João 15:5: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer"